domingo, 17 de abril de 2016

OS QUATRO CHIFRES DO DEMÓNIO

Cap. IV

Quando transpus a porta para o outro lado, constatei que tinha acabado de entrar na biblioteca. As estantes de madeira, pintadas em cores claras, confundiam-se com as paredes, que pareciam forradas num papel de padrões coloridos e geométricos, devido às cores diversas das lombadas dos livros, dispostos de uma forma arrumada e limpa, ao correr das prateleiras. Suspenso, sobre a minha cabeça, como uma aranha transparente, um lustre de cristal sustentava um anel de pequenos sois cintilantes. Mais ao fundo, sobre uma robusta mesa de leitura, com um tampo polido em tons de ébano e pernas arqueadas como as de um fauno, repousavam meia dúzia de livros, alguns papeis dispersos, um telefone e um cinzeiro em vidro, vazio e limpo. Ao contrário do salão nobre, ali sentia-se que o mundo preferia manter o enigma das coisas vivas. Lembrei-me que tinha lido algures, que os livros eternizam a vida dentro deles, porque conservam um bocadinho de cada uma das almas que os lê. Não sei se seria assim, mas a verdade é que, naquela sala, havia algo de muito forte a impor a sua presença. Também não sei se essa presença vinha dos livros, ou dos objetos, ou da própria casa e da história que ela contava, ou, até, se eu me estava a deixar levar por alguma fantasia momentânea, própria dos desatinos criadores. O que sei é que, aquele espaço, com ar arrumado e luminoso, se teria de ser dominado por alguma alma, não o seria com certeza pela sinistra viúva. E foi quando, subitamente, senti um leve suspirar nas minhas costas, o que me provocou um calafrio, mais pelo efeito de surpresa do que pelo susto. Depois, a minha racionalidade voltou à tona e levou-me a pensar que se tratava de minha mãe.

“Então? Já acordaste?” Reagi.”

“Se já acordei? Estou acordada desde há tanto tempo que nem o dia se lembrava ainda de nascer.”

Reconheci, de imediato, que não era quem eu pensava. A voz era feminina, doce como a de minha mãe, mas mais timbrada e resoluta. E quando me virei, lá estava aquela figura, esguia e sensual, com a perna esquerda a cruzar sobre a direita, o corpo ligeiramente reclinado, e com ambas as mãos apoiadas na ombreira da porta, onde pousava o rosto e escondia o olhar, por baixo de uns cabelos longos e ondulados. Durante alguns momentos, aquelas duas órbitras de sombra fulminaram-me, emanando um enigmático encantamento, o que me roubou as palavras e me fez paralisar. Então, após desfazer a posse, dirigiu-se a mim com dois passos largos, e a mão direita em riste para me cumprimentar.

“Olá. Sou a Joana. Joana Aragão, a neta...”

“…E tu? Deves ser o Africano. Ou o menino da mamã, pelo que me consta.” Arriscou, com um esgar sorridente, enquanto apertávamos as mãos. Senti-lhe a pele tépida e suave, e apeteceu-me prolongar o cumprimento, mantendo-lhe a mão apertada durante algum tempo, o que ela não recusou.

“Francisco Boaventura, o Africano, tal como dizes.” Assenti. “E a ti, como te posso chamar? Joana? Ou Joaninha, a menina da vovó?”

“Podes-me tratar por Janis, como todos os meus amigos. E estou muito longe de ser a menina da avó, essa beata velha, posso garantir.” Respondeu com um semblante mais sério, retirando a mão de dentro da minha.

“Não duvido.” Assegurei. “E será que ouvi bem? Janis?..de Janis Joplin?”

“Em cheio, Africano espertinho. Parece que afinal sempre conheces o mundo, para além da selva.” Respondeu, irónica.

Foi então que deu meia volta e me virou as costas, para se afastar num andar ostensivo e provocador. Por baixo de uns jeans boca-de-sino, muito justos nas ancas, e de uma blusa larga, em tons de marrom, meio transparente, toda a voluptuosidade daquele corpo de mulher, lânguido e esguio, se insinuou perante o meu estupidificado olhar de macho, sujeito à tentação. Enquanto caminhava até á mesa de leitura, cada passo que dava realçava-lhe os contornos femininos, como se fosse um bailado de formas, a desenvolver-se desde a linha interior das coxas, cruzando-se com a curva das nádegas, até explodir nos confins do meu cérebro. Assim que se sentou, naquela poltrona de couro pardacento, lançou-me novamente o seu olhar, intenso e penetrante, como se me estivesse a ver por dentro, como se aquele olhar fosse um bando de pássaros negros a pousar sobre uma árvore nua, exposta a uma tempestade.

Então, puxou uma das gavetas, pegou num maço Negritas, já aberto, de onde fez deslizar um cigarro, que lançou nos lábios com um gesto rápido e preciso. Fez todos estes gestos sem descolar os seus olhos dos meus, sempre com um sorriso malicioso, tendo a noção exacta dos efeitos que a sua atitude provocatória me estava a causar. Eu sabia perfeitamente que ela me estava a testar, como só as mulheres sabem fazer, e mantinha-me imperturbável, a tentar demonstrar uma certa indiferença. Mas a indiferença é sempre uma estratégia de risco, que pode passar de mel a fel e vice-versa, e que se deve abandonar na altura certa. Foi quando meti a mão ao bolso, para pegar no isqueiro e lhe oferecer lume. Só que, quando ela se debruçou para se aproximar do isqueiro, e levantou a mão esquerda para puxar a farta e escura cabeleira para trás da nuca, o movimento do braço fez com que o largo decote da blusa se abrisse um pouco mais, o suficiente para lhe revelar o contorno dos seios, cândidos e roliços, como dois montículos de neve, coroados com uma auréola de bronze. Se até ali tinha sido um tormento manter o decoro, agora passava a ser uma tortura. Por momentos, apeteceu-me enlouquecer, meter a mão pelo decote e acariciar, com a ponta dos dedos, aqueles dois carocinhos de carne, mordiscá-los até que eles se retesassem de prazer e me suplicassem por mais. Ocorreu-me que a loucura é como a corda de um alpinista; se a usarmos corremos o risco cair, e se não tivermos a audácia de a usar, também nunca chegaremos ao cimo da montanha. E a verdade é que não tive essa audácia, e fiquei-me nas cordas. Para disfarçar o embaraço, desviei o olhar para a parede, por detrás da poltrona, onde estava pendurado um quadro da já referida Janis Joplin. Joana, ou melhor Janis, sem largar o seu sorriso malandro, chegou a ponta do cigarro ao lume do isqueiro, recostou-se para trás, traçou as longas pernas, firmes e torneadas, e lançou duas baforadas na minha direcção.

“Fumas?”

Ainda debaixo da excitação que aqueles últimos minutos me provocaram, retomei atrapalhadamente a compostura, como se nada se tivesse passado, e respondi:

“Depende. Não em recintos fechados.”  

“Mas que menino atinado me saíste!” Ironizou.

“Sabes, desde muito pequena que adoro Janis Joplin. É o meu ídolo. Uma deusa, que me acompanha e acompanhará enquanto eu pertencer a este malvado mundo dos vivos.”

 “Ter ídolos, vivos ou mortos, pode não ser mau de todo, desde que eles se mantenham no céu e nós na terra.” Argumentei. “Mas, mesmo vindo da selva, consigo ver que não és do género de resignar, tal como fez o teu ídolo. É que de resignações está o inferno cheio, e pelo que pude constatar, durante o dia de hoje, desse mal nem esta miserável terra se livra.”

“Obrigado pelo elogio. No que me diz respeito, podes ficar tranquilo, gosto demasiado da vida para a deitar cano abaixo. No entanto, reconheço que tens alguma razão, em relação à Janis. Julgo que nunca se saberá se o fez por excesso de lucidez ou de loucura, e a loucura leva sempre á resignação. Para se ser idolatrado é preciso ser louco, e isso tem os seus custos.”

“Provavelmente.” Admiti.

“Relativamente ao Tozé, tenho as minhas sérias dúvidas, porque o conhecia demasiado bem”

Percebi que se estava a referir ao António José, o jovem enforcado, daquele dia.

“Não era tolo nem sábio, nem louco nem esclarecido, era o mais comum dos mortais, como todos nós somos. Eu nunca compreendi essa ideia repentina dele de querer ser acólito, e de casar pela igreja, mas penso que viu nisso a única forma de se aproximar da filha do sacristão; a Ana Maria, a noiva, ou a Mata Noivos, como eu lhe costumo chamar, e por quem ele se apaixonou. Enfim, tinha os seus sonhos, os seus anseios e angústias também, mas era isso que o fazia andar. Duvido muito…ou por outra, não duvido, tenho a certeza que nada o levaria a cometer tamanha loucura.”

“Então, achas que ele não se suicidou?” Indaguei.

“Não sei…não sei mas vou descobrir. Ninguém me tira da cabeça que essa falsa santinha, que essa fingida da noiva, não tenha nada a ver com isto.”

Entretanto, após uma curta pausa, Janis descruzou as pernas de cima da mesa e torceu o tronco, o suficiente para lançar o olhar na direcção da janela.

“ Estás a ver aquele cruzeiro lá fora?”

“Sim, estou. Passei por lá há pouco, antes de entrar nesta casa.”

“E viste a coroa de flores?”

“Claro que vi. Para além de uma lamparina e de umas marcas com algarismos, o que achei estranho e algo sinistro.”

“Pois põe sinistro nisso. Foi ali que o primeiro morreu.”

“O primeiro?” Suspirei, incrédulo.

“Sim, o primeiro namorado da Ana Maria. Nas últimas grandes cheias, apareceu ali com um pé preso na argola de ferro onde estão penduradas as flores. Foi encontrado mais podre que uma abóbora, depois do nível das águas ter baixado e de toda a vila o ter procurado, durante dias a fio. Na altura, toda a gente afirmou que se tinha matado e foi assim que o caso foi encerrado. Nem a uma única badalada de sino, aquela alma teve direito.”

“De facto, não deixa de ser intrigante!” Observei.

“Como vês, já existem antecedentes e tenho todas as razões e mais algumas para suspeitar dessa nossa queridinha Mata Noivos. Há muita coisa ainda por explicar.”  

 Declarou, com um ar circunspecto, expelindo uma baforada de raiva, enquanto esmagava a beata do cigarro no fundo do cinzeiro.

“E tu, meu menino da mamã, tem cuidado com estas beatas cá da terra, sejam velhas ou novas. São piores que o mosquito, mordem pela surra e quando dás por ela já estás contaminado e sem salvação. Principalmente, não vás na cantiga da velha beata aqui da casa, nem tu nem a tua mãe. Ou então, daqui a pouco não fazem outra coisa senão andar a lavar o rabinho do padre Clementino com água-de-colónia.”

“Não! Claro que não.” Balbuciei, demasiado crédulo, só porque não me ocorreu mais nada para dizer.

“Mas já vi que não morres de amores pela tua avó.”

“Quem vai morrer de amores por uma víbora dessas? Ela no seu cantinho e eu no meu, e é assim que deve ser.”

Reparei que não pretendia falar sobre o assunto. Mesmo assim, ainda acrescentou:

“Mas não te preocupes, são assuntos nossos. Apesar de tudo, para além de falar pelo cotovelos, não deixa de ter algumas coisas boas. Se tens intenções de continuar por aqui, e levares uma vida tranquila, só tens de cumprir estes três mandamentos: Não seres comunista, ires á missa todos os Domingos e cortares esse cabelo.” Rematou, lançando uma gargalhada.

Então, levantou-se de repente e chegou-se a mim, colocando os seus olhos de âmbar à altura dos meus. A sua respiração entrou por mim como se fosse a minha, senti o ardume do seu corpo a queimar-me por dentro e todo eu estremeci, não conseguindo disfarçar a excitação, novamente.

“Que achas do amor livre?” Sussurrou, apanhando-me desprevenido, fazendo-me recuar até assentar as nádegas no bordo da mesa, quase ao ponto de me desequilibrar.

“Todo o amor é livre. Que eu saiba ninguém pode proibir ninguém de amar.” Consegui retorquir, mesmo assim.

“Não estou a falar desse amor. Não falo de romance. Refiro-me ao amor carnal, ao sexo. Imagino que saibas o que isso é.”

Insistiu, enquanto me empurrava para trás com os dedos da mão direita enfiados entre os botões da minha camisa, arrepanhando-me os cabelos do peito e encaixando-se em mim. Os jeans, demasiado justos, realçavam-lhe a fenda do sexo, fazendo-me sentir como se estivesse a sobrevoar um vale entre duas montanhas. Ao aperceber-se do chumaço entre as minhas pernas, aquele animal bravio, fez questão de me enlouquecer ainda mais, pressionando a zona da púbis contra o volume do meu pénis entesoado. Eu termia, não de frio mas de raiva e desespero. Raiva por saber que ela se estava a divertir á minha custa, sem sequer me ter convidado, e que tudo não passava de um engodo, de um ardil feminino, com o único propósito de me levar ao limite. Desespero, por não poder entrar naquele jogo; porque não me saía da cabeça que a minha mãe e a velha estavam ali ao lado, e porque tinha a noção de que, assim que tivesse o primeiro gesto de audácia, assim que tivesse a coragem de fraquejar, tudo se esfumaria. Porque as mulheres são mesmo assim; picam o boi, e quando o boi se vira para lhes fazer frente, em vez de o pegar fogem com o rabinho entre pernas. Fazendo força com as mãos atrás das costas, arrastei o rabo pela mesa e afastei-me ligeiramente.

“Acho que… cada coisa no seu lugar…tudo no seu devido tempo.” Gaguejei.

“És mesmo atinadinho. Mas gostei de ti. Um dia destes vou descobrir esse teu lado selvagem.” Segredou-me, com os seus lábios, húmidos e redondos, quase a roçarem os meus.

De seguida, sem que eu tivesse tempo de reagir, recuou e saiu porta fora, deixando-me estatelado em cima da mesa, de costas que nem uma barata tonta.

Ainda consegui pigarrear uma resposta, mas já nem as paredes me ouviram.

“Não duvido, menina Janis...”

Quando me recompus, depois de me ter tentado levantar sem deitar nada ao chão, já a luz do crepúsculo deslizava, silenciosa, pela abóboda negra da noite. Durante largos momentos, não consegui raciocinar devidamente sobre o que tinha acontecido naquela sala. Aliás, nem sobre o que tinha acontecido ali, nem naquele casarão, nem desde que chegáramos aquela povoação. A verdade é que, para uma terra pequena e pacata, como minha mãe tanto gostava de apregoar, já me parecia haver demasiada emoção. Não tanto por causa daquela cena teatral de Janis, e pela sua atitude de gata assanhada, mas mais por tudo aquilo que ela disse. Se, por um lado, Janis se revelou um ser destravado, muito para além do seu tempo, por outro, pareceu-me alguém com uma grande maturidade e muito firme nas suas ideias, e foi isso o que mais me fascinou. Não porque a imagem daquele corpo, quente e libidinoso, não deixasse de me espicaçar o cérebro, ou porque eu menosprezasse os assuntos da carne, relativamente aos do espírito. Tal como meu pai, também eu começava a apreciar, com todo o entusiasmo, os atributos femininos, e a aprender que, muitas vezes, não se pode ir ao pote com demasiada sofreguidão. Por isso sentia-me bem comigo mesmo, por saber que, se eu a Janis tivéssemos ido mais além, seria com certeza o fim sem sequer ter havido princípio. E como as ânsias do corpo são sempre mais fáceis de solucionar do que todas as outras, haveria que dar tempo ao tempo, porque novas oportunidades surgiriam.

A chuva tinha parado, deixando apenas umas finas agulhas de água a escorrer pelas vidraças. Espreitei por entre os pesados cortinados de veludo, em tons de pérola. Lá fora, no lado oposto da praça, vislumbrava-se a sombra de um candeeiro de parede, a despejar um pálido e tímido cone de luz. O cruzeiro de pedra dissimulava-se na penumbra da noite, com as suas negras marcas dos anos. A lamparina tinha soçobrado perante a chuva, tal como a coroa de flores perante a mágoa. Agora, depois do que Janis me contara, podia compreender melhor o significado daqueles sinais. O cruzeiro era a memória viva das trágicas inundações com que o tempo se habituara a brindar aquela terra, e nada melhor do que uma cruz para simbolizar a fatalidade. A última grande cheia tinha sido em 1975, tinham-se passado dois anos. O nível das águas quase que submergira a totalidade do cruzeiro, conforme indicava aquela linha preta, gravada na pedra. Calculei, pela sua altura, que toda a zona baixa de Valdágua teria ficado inundada, que todas as casas periféricas da praça teriam ficado submersas e que só o primeiro andar do casarão, deveria ter escapado á devastação das águas. De facto, não deve ter sido por acaso que o criador deste mundo escolheu, como sítio para viver, o céu e não a terra. É que o mal quando chega vem sempre por baixo, como um bicho rastejante.

Olhei mais uma vez para o cruzeiro e pensei que não deixava de ser irónico alguém morrer amarrado a uma cruz, tal como morreu Cristo, para, de seguida, ser renegado. Lembrei-me, também, daquele corpo acabado de descer á terra fria, mas que não era mais fria do que as terras abençoadas. Duas almas párias, ambas unidas pelo amor que tiveram á mesma mulher, um amor que, provavelmente, lhes traçou o destino.

Naquele dia em que, eu e minha mãe chegámos, os sinos não tocaram. Deus refugiara-se num profundo silêncio. Pensei que o silêncio é um recurso inesgotável, que nunca deixa de marcar comparência perante os mais necessitados e que poderia muito bem ser a última bênção das almas resignadas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

OS QUATRO CHIFRES DO DEMÓNIO - CAP I


Chegámos à vila precisamente na hora do enterro. A tarde, naqueles primeiros dias de Março, deixava-se humedecer numa morrinha soturna e fria, quase gelada. O comboio foi refreando a marcha num guinchar de aço contra aço, até que, após um frémito brusco, estancou; como um cavalo exausto a aguardar o apear do cavaleiro. Enquanto retirava as malas da bagageira, olhei através dos vidros sujos das janelas e vi a guarita do velho apeadeiro, mostrando a sua decadência. O salitre trepava pelas paredes, comendo-lhes a cal e o barro, desenhando mapas de um mundo desconhecido. Sobre a parede lateral, um painel de azulejos amarelecidos, ostentava o nome da povoação, escrito em letras azuis, já num tom desmaiado: “Vale de Água”. Ao longo da gare, um muro de alvenaria alvacenta exibia os sinais da revolução, onde se destacava uma anafada figura, a fumar um charuto, de cartola na cabeça, e a ser decapitado por uma enorme foice (cruzada com um martelo), desenhados num vermelho sanguíneo. Por baixo da funesta figura consegui ler: “Fora com os capitalistas” e “Morte ao fascismo”.

Eramos os únicos passageiros a desembarcar. A guarda da passagem de nível mantinha-se de bandeirola vermelha no ar. Era uma silhueta estranha, com a forma de um pino de bowling, parecendo envolvida num invólucro transparente que a confundia com o ar pesado da tarde, e a tornava quase invisível. Atabalhoadamente, eu e minha mãe, descarregámos a bagagem sobre as lajetas do cais, dilaceradas pelo alastrar das ervas daninhas. A guarda baixou a bandeirola e o comboio deslizou sobre os carris, franqueando-nos a vista. Foi então que deparámos com aquele manto escuro de gente, barrado pela cancela de cantoneiras metálicas, pintadas a vermelho e branco. Uma urna parecia boiar sobre os olhares tristes, como se ninguém lhe pegasse, como se uma força estranha lhe não permitisse já algum contato com qualquer sinal de vida. A tenebrosa caixa negra, banhada num lustre preto e dourado, lançava lampejos púrpuros, num ritmo intercalado, acompanhando o piscar luminoso dos semáforos e o retinir das campainhas. Quando aquele monstro de ferro se sumiu na primeira curva da via-férrea, o pisca-pisca apagou-se e o tlim-tlim-tlim deixou de se ouvir. A cancela desimpediu a passagem e o funeral retomou a marcha, deslizando como uma sombra silenciosa, rente ao chão de asfalto húmido.

“Que estranho! Um funeral sem padre. Não reparaste?” Disse minha mãe, subitamente, apanhando-me desprevenido, ainda a olhar ao longe o gingar da última carruagem sobre o polido luzidio dos carris.

“Eu, não! Reparaste tu, porque estás viva. De certeza que o morto não se vai preocupar com tal pormenor.” Respondi.

“Querido, só não fico chocada porque sou tua mãe e conheço-te muito bem.”

Continuou ela, não digo indignada mas talvez algo inquisidora, dando-me a sensação de que se calou a matutar no assunto. De seguida, pegou nas malas e virou-me as costas, pondo-se ao caminho.

“Vamos, estou sem pachorra para o teu humor negro.”

Mais adiante parou, junto ao pino de bowling.

“Boa tarde. Por favor, sabe-me dizer onde fica a praça do Cruzeiro? Perguntou, afavelmente, parecendo-me que só lhe fez a pergunta para não parecer antipática.

Peguei também nas minhas coisas e segui-a. Em silêncio, a mulher apontou a bandeirola para o outro lado da linha, no sentido oposto ao que seguiu o funeral. A minha mãe (a partir de agora chamar-lhe-ei apenas mãe por achar desnecessário estar sempre a repetir que é minha) retomou o passo decidida. Partiu daquela terra, há muitos anos atrás, quando era criança, e ainda tinha uma vaga ideia do trajeto a seguir até à casa da viúva Matilde, onde iriamos ficar. Seguimos os dois por um caminho de pedra rolada, tornando-se penosa a caminhada, devido ao piso irregular e à imensa bagagem. Duas centenas de metros à frente parámos e a mãe voltou à carga:

“Sabes, meu querido, a partir de agora tens de ter alguma ponderação com certas coisas que dizes. Não é por mim, que te tolero tudo, mas estamos numa terra pequena, de gente católica, e, por vezes, podes ferir algumas suscetibilidades.”

“Deves estar a brincar comigo! Nem tu nem ninguém me irá impedir de dizer o que penso. E pelo que ouvi contar a censura já acabou há alguns anos atrás…”

Retorqui, levantando-me de cima da mala onde estava sentado e olhando á minha volta para disfarçar a irritação. As casas que ladeavam o caminho expunham-se na solidão amarga da tarde. Eram casas baixas e contíguas, com telhados cerâmicos enegrecidos pela invasão predadora dos fungos e líquenes; todas com fachadas caiadas num branco mortiço e com socos em tons de anil, carmim, por vezes ocre. Vi portas e janelas fechadas, e não senti vivalma. Pensei que, provavelmente, todos aqueles seres que as habitavam estariam no funeral, deixando nelas o mesmo pesar que carregaram consigo próprias. A morrinha tinha dado lugar a um chuvisco mais intenso e a humidade começava a moer a pele. Prosseguimos e retomei a conversa:

“…E também não fui eu que pedi para vir para este beco do mundo, medonho e triste! Já me sinto a definhar e ainda mal cheguei.”

“Até posso aceitar que reajas assim, mas sabes que não temos alternativa. És um jovem, a revolta e a irreverência ficam-te bem, mas, por agora, temos de aceitar esta oportunidade que nos dão.”

Continuou a mãe, já arquejada pelo peso das malas e pelas nossas conversas de sempre. Eu, sentindo-lhe o desânimo, tirei-lhe duas das malas, para a aliviar um pouco do esforço, e concluí:

“Vamos. Depois se vê. Sabes bem que só estou aqui por causa de ti!”

Finalmente chegámos à praça do Cruzeiro, que de praça só tinha o nome, pois não passava de um pequeno largo, onde, em pleno centro, se via uma tosca e retangular cruz de pedra. Sem grandes primores artísticos, erguia-se sobre um sopé quadrado, a formar três degraus; para onde atirei a carga que já me afadigava as costas, e onde me sentei enquanto esperava pela mãe, que se deixou atrasar. O antigo cruzeiro, pela sua simplicidade, nunca despertaria a atenção do turista mais curioso. No entanto algo incomum me fez reparar nele; sobre a superfície de pedra, já carcomida pelo tempo, a subir ao longo da sua coluna vertical, viam-se pequenas linhas pretas horizontais, que mais parecia estarmos perante uma régua graduada, mas com espaços irregulares. Levantei-me para ver com mais atenção. A seguir a cada uma das linhas havia a inscrição de quatro algarismos, correspondentes a anos diferentes. Reparei nos mais visíveis, que também eram os mais recentes; 1962, 1969, 1973, etc.; mas sem qualquer sequência ou correspondência entre eles. Mesmo no alto do cruzeiro (e convém dizer que este tinha, bem à vontade, cerca de quatro metros), ainda consegui ver o último traço, correspondente ao ano de 1979. Mas o mais curioso disto tudo foi quando contornei o cruzeiro; pendurado numa argola metálica, no lado oposto da coluna, havia uma coroa de flores já secas e esmorecidas. Mais abaixo, no sopé de pedra, uma lamparina de azeite irradiava uma luz trémula, resistindo ao fulgor da chuva.

Senti-me intrigado. Desde que chegara que só via sinais sinistros á minha volta e interroguei-me sobre o que estaria a fazer naquele local. Entretanto a mãe alcançou-me, arrastando as suas malas.

“Que estás a ver? Perguntou, exausta.

“Curiosidades.” Respondi, sem que ela desse importância ao assunto.

“Olha, querido! Deve ser a casa da Senhora Matilde. Pelas indicações que me deram, só pode ser aquela.” Disse entusiasmada, apontando na direção de um edifício de dois pisos, no outro extremo da praça.

“Ainda bem que finalmente chegámos, já não posso com uma gata pelo rabo.” Concluiu, com uma euforia refreada pelo cansaço.

Olhei o casarão com desprezo e mantive-me em silêncio. Um desprezo originado pela indiferença que me vinha consumindo a alma, desde que abandonáramos África. Vi-me perdido, num mundo reverso. Deitei os olhos ao céu e senti saudades do sol.

terça-feira, 24 de junho de 2014

SEI PORQUE PARTISTE

Olá Mana. Não sei onde andarás agora, mas julgo que estarás em viagem, em busca de um lugar onde nunca estiveste e que, muitas vezes, procuraste. Imagino, eu, que esse lugar só pode ser um refúgio, inundado de paz, e onde possas, finalmente, ficar numa eterna e merecida tranquilidade. Partiste sem te despedires. Mas quem sou eu para te julgar por isso? Quantas vezes parti sem nada te dizer? Sem te procurar, sem te dar um abraço, sem te fazer sequer um aceno. Telefonavas-me depois, sempre sorridente, a dizer: “Mano não me ligas nenhuma. Eu tentava desculpar-me: “Não é bem assim…sabes que eu gosto de ti…” Tu, nessa tua ingenuidade, nessa tua infinita bondade, logo me perdoavas, passando por cima das minhas desculpas esfarrapadas: “ Deixa lá Mano, deixa lá, eu compreendo”.
Eu refugiava-me no meu egoísmo, acomodava-me na minha indiferença e acobardava-me no meu fingimento de que basta ter o mesmo sangue para se gostar de alguém. Mas não é bem assim! E teria sido tão fácil, provavelmente bastaria olhar bem nos teus olhos nas raras vezes em que estávamos juntos. Se tivesse reparado como deve ser, poderia ter visto melhor a tua dor, e, quem sabe, ter tentado aliviá-la. Poderia ter pegado em ti e levar-te para longe, indicar-te um outro caminho, não sei se certo ou errado, se melhor ou pior, mas, pelo menos, um caminho diferente, talvez menos penoso e sem tanto sofrimento.
Não o soube fazer, deixei-me levar pelo teu sorriso fácil, pelas tuas palavras doces e conciliadoras, e, com as quais, tentavas esconder a alma, com as quais tentavas defender aqueles que amavas de verdade.
Assim, deixei-te à mercê das facas e da fúria desenfreada de quem te vinha dilacerando há muito. Ficaste só, com esse teu coração enorme e macio que te enchia o peito todo, que brandiste com coragem perante os gumes psicóticos e assassinos, e que apenas as pessoas boas conseguem suportar. Vais-me perdoar, como sempre. Como sempre perdoaste a toda a gente.
Partiste sem dizer nada. Mas sabes, vou-te contar uma coisa, porque já não viste. Até as nuvens se despediram de ti, mesmo aquelas mais negras que ninguém quer, choraram com a tua partida. E a chuva? Anda por aqui inquieta e triste, tentando fazer ciúmes ao sol, á lua e aos dias claros só porque te foste.
Eu, agora, vou estando por aqui, reduzido à insignificância de um ser que somente tenta saber os quês e os porquês. Eu cheguei e tu partiste, mas penso que está bem. Não te vou oferecer flores, porque já as devia ter oferecido há muito, mas sei que dessa janela, onde viajas a caminho da felicidade, podes ver extensos e frondosos jardins.
Olá Mana, mais uma vez. Eu sei porque partiste.

domingo, 27 de abril de 2014

CAMINHANDO SOBRE AS ÁGUAS DO MAR


Era Domingo e, finalmente, poderia ter algum tempo livre. Por ali, o sol nascia sempre demasiado cedo. A luz cálida e intensa invadiu o quarto, ferindo-me os olhos ainda ensonados pela ressaca da noite. Os lençóis colavam-se ao corpo, teimosamente, num desconforto que eu insistia em prolongar, somente por preguiça. Por baixo do braço entorpecido, que me cobria o rosto, tentei vislumbrar os enormes algarismos fluorescentes do antigo despertador; que me vigiava do alto de uma cómoda gasta e escura, durante todas as minhas santas horas de sono, num enervante e insuportável tic-tac. Eram seis da manhã, enrolei-me, ainda mais, nos lençóis transpirados e quentes, e deixei-me dormitar numa espécie de cegueira branca.

No dia anterior, tinha terminado a leitura do romance “Ensaio Sobre a Cegueira”. O livro fala nos que são cegos porque não querem ver e nos que, não sendo, cegam porque não têm ninguém para os ver. Pensei em ti, naquilo que poderias estar a fazer, no que poderíamos fazer juntos caso não estivesses tão longe, pensei nas nossas zangas sem sentido, nos nossos silêncios, pensei na cegueira que nos invade, por vezes, quando estamos tão perto, naquilo que só conseguimos ver quando nos afastamos, e pensei que é nestes momentos que realmente sei de quem gosto.

Sentia comichão nas pálpebras, provocada pela camisa preta que coloquei sobre os olhos para fingir a penumbra ou, talvez, para não enfrentar o dia radioso que nascia, tão vazio pela tua ausência. Foi quando me bateu a saudade e soube que não poderia continuar mais naquela indolência demasiado susceptível aos pensamentos.

Levantei-me num ímpeto repentino e resolvi ir viajar, sozinho, pelo interior. Não verifiquei, sequer, se o jeep tinha ferramenta ou pneu suplente em condições. Perdoa-se a imprudência pela ousadia pois não era aquele o momento para estar com preocupações mecânicas. A perspectiva do pasmo domingueiro, fazia perder todos os receios de me aventurar no interior duma ilha sempre desconhecida para mim. Geralmente, nestas alturas, o lema era o “logo se vê”.

Ao contrário do tempo de seca, a ilha tornava-se mais bonita devido às chuvas recentes. Uma erva rasteirinha cobria o chão infértil, dando um aspecto verde e suave à paisagem. As árvores, próprias dali e das quais, ainda hoje, não sei o nome, eram raras e escassas, contrariamente aos cactos e às pedras que emergiam isoladas no solo. A estrada, toda em cubos de pedra basáltica, serpenteava estreita ao longo dos montes, por vezes íngremes. Era preciso ter algum cuidado, frequentemente as pedras desagregavam-se das escarpas alojando-se no meio do caminho, numa atitude de arrogante provocação. Por vezes, alguém se lembrava de as tirar de lá. Os vales, onde afluíam as linhas de água vindas das montanhas, eram as dádivas de Deus naquela terra. Ali, a paisagem tornava-se esplendorosa, com coqueiros, bananeiras e outras culturas que a terra húmida das chuvas permitia e que as gentes locais aproveitavam para a sua parca subsistência.

Cheguei à Cidade Velha, antiga capital da ilha, e que, agora, não passa de uma pequena povoação, entalada entre a encosta e o mar e onde se entra, apenas, por uma estrada sinuosa e íngreme. As ruínas dos primeiros edifícios coloniais davam lugar a pequenas construções de blocos sem cor, á excepção da sé catedral que se encontrava em reconstrução, e único sinal de movimento nos dias úteis da semana. Mais acima, no alto da encosta, os canhões corroídos da velha fortaleza vigiavam o horizonte, como se aguardassem, ainda, estoicamente, as investidas do pirata Francis Drake.

Não se via vivalma. O silêncio era, apenas, quebrado pelo rodar dos pneus sobre o empedrado da rua estreita que dava entrada á praça da cidade, e por alguns sons vindos do interior das casas, provocados por alguma azáfama doméstica. As portas e janelas abriam-se, despudoradamente, franqueando o intenso movimento de insectos; atraídos pelos resíduos de carne crua acabada de talhar, e destinada á sempre comedida refeição domingueira. O pelourinho da praça, já bastante desgastado pela proximidade do mar, mantinha-se só, tentando, talvez, esquecer o arrastar das grilhetas e o cheiro salpicado de sangue, dos escravos que, outrora, agonizaram a seus pés.

O mar estava calmo, provocando um ondular de espuma branca que se sumia suavemente por entre o calhau rolado e escuro da pequena praia. Uma aragem quente e leve, vinda do outro lado do mundo, passou por entre as folhas longuilínias das palmeiras, e fez-me pensar novamente em ti. Já não o fazia desde o inicio da viagem, talvez porque a magnitude da paisagem me tivesse absorvido de tal forma que o pensamento bloqueou, fazendo-me esquecer tudo quanto não fosse permitido ao olhar.

Olhei, novamente, o mar calmo e avistei tão longe que a linha do horizonte já não era recta mas, sim, redonda como a linha da terra. Imaginei a tua pele branca e suave, as carícias perdidas pela distância e os beijos que te poderia dar, meigamente, por entre os cabelos soltos; enquanto dormitavas encolhida, ao canto do sofá, e expondo, subtilmente, a curva dos seios por entre o decote da blusa fatigada pelo longo dia. Lembrei-me dos nossos longos passeios a pé, de mãos dadas através da noite, dando risos cúmplices sem motivo ou dizendo coisas banais e sem sentido.

Senti uma vontade tresloucada de te tocar, atravessei, descalço, as pedras molhadas, galguei a brandura das ondas e caminhei, ao teu encontro, sobre as águas do mar. Não sei a distância que percorri para te alcançar, o sol alto do fim da manhã bateu-me de chofre e soltou-me do torpor que a tua presença imaginária me provocou.

Sentado no murete que limitava a praia, resguardei-me numa das erráticas e modestas sombras originadas pela copa dos coqueiros, mas, depressa, o sol já abrasador me fez procurar outro local. Olhei em redor e, ali perto, avistei um velho telheiro circular; constituído por uns esguios troncos de madeira que suportavam, debilmente, uma cobertura de capim já ressequido, que os ventos mais fortes se iam encarregando de desfazer ao longo do tempo e que me poderia abrigar mais confortavelmente.

Continuava a não se ver vivalma e uns imperceptíveis cânticos eucarísticos, vindos dali perto, misturavam-se com o rumorejar das palmeiras e dos coqueiros. Lembrei-me que era Domingo, e que, certamente, a maioria dos habitantes da terra estariam dentro da igreja a assistir á missa. A sombra do pequeno abrigo aconchegava-me os pensamentos e, com as mãos atrás da nuca, estendido sobre as pedras da praia, tentei concentrar-me em toda aquela mistura de sons que envolviam o local; talvez, e mais uma vez, para esquecer a tua ausência. Foi quando pressenti alguém que caminhava ao ritmo de passadas largas e lentas, provocando um estranho barulho de pedra triturada.

Rodei a cabeça sobre a concha das mãos. Um vulto, que imaginei ter á vontade dois metros e tal de altura, aproximou-se desastradamente, batendo com o avantajado corpo num dos pilares do telheiro e, quase, fazendo ruir o já periclitante e frágil abrigo. Uma nuvem de pó e resíduos de capim podre, caiu-me sobre os olhos, cegando-me momentaneamente. Quando recuperei a visão, e ainda meio entontecido, vi uma enorme mulher negra perto de mim, sentada sobre um tosco banco de madeira carcomida.

         Com um arfar pesado e muito pausadamente, retirou um coco de dentro de um alguidar, que tinha colocado anteriormente a seu lado. De seguida, com uma pequena catana aguçada e num gesto único, que só uma destreza criada ao longo de muitos anos de prática permitiria, abriu um orifício na base do fruto ainda verde, estendendo-o com um dos seus longos braços e, olhando, finalmente, na minha direcção:

-Toma branquinho, mata-te a sede e alivia-te a saudade!

Mal refeito pela surpresa, sentei-me de pernas cruzadas, com os cotovelos sobre os joelhos, e, sem uma única palavra, bebi deliciosamente o refrescante suco que golfava do interior da polpa daquele fruto tropical. Com dois gestos cruzados, boçais até para quem pudesse observar, mas naquela altura isso nem sequer me preocupou, limpei os cantos da boca às costas das mãos, e após um extasiado agradecimento:

- Porque acha que estou com saudades?

-Não acho sente-se. Tudo á tua volta transpira saudade! Respondeu firmemente.

- Senão – acrescentou - que estarias aqui a fazer, olhando com esse ar melancólico o outro lado do mar?

- Provavelmente tem razão! Retorqui consentido, como quem está pouco interessado do assunto e não quer desenvolver demasiado a conversa.

Olhei mais atentamente aquele espécimen. Era, de facto, enorme! Vestia saia preta e uma blusa, já gasta de tanto uso, também escura mas que não me recordo exactamente da cor. O seu corpo volumoso e mole, parecia querer fugir por entre as pregas da roupa; que se notava ser feita por medida mas, mesmo assim, demasiado justa. Enrolado á cintura e á volta da cabeça usava uns “panu di terra”(*) de padrões avermelhados, o que lhe dava um toque de cor e o aspecto típico das gentes da ilha. O seu rosto largo resplandecia, sobre a atmosfera, a cor bronze da pele. Dos seus olhos, de um verde fluorescente, nunca mais me esquecerei. Eram eles que transmitiam vida aquela grande massa de carne, irradiando um sentimento de bonomia e felicidade, ao mesmo tempo. No entanto, contraditoriamente, e por vezes também, uma profunda tristeza invadia-lhe o olhar, como se algo de muito trágico a perseguisse ao longo da sua vida.

Um embaraçante silêncio foi-se estabelecendo entre nós, que quanto mais se prolongava mais difícil se tornava encontrar tema para reinício de conversa. Ganhei coragem e de maneira a fugir ao assunto anterior, perguntei:

-Porque não está na igreja como todas as outras pessoas?

-Cortei relação com Deus há muito tempo!

Respondeu quase sem me deixar acabar a pergunta.

A forma seca e dura como foi dada a resposta deixou-me paralisado e sem reacção para lhe perguntar mais o que quer que fosse. Mas, após mais alguns momentos de silêncio, ela retomou a conversa e disse-me que não me iria dizer o seu nome verdadeiro porque o achava demasiado feio mas que toda a gente lhe chamava Giga! Sorri para dentro disfarçadamente. Pensei, obviamente, como todos pensariam, que a alcunha tinha tudo a ver com o seu tamanho e não fiz qualquer comentário.

Contou-me que era da ilha do Fogo e que vivia naquela povoação, vendendo cocos na praia, já há muitos anos. Disse-lhe que nunca tinha ido à ilha do Fogo mas que já a tinha visto algumas vezes quando atravessava a serra da Malagueta, em viagem para o Tarrafal. Falámos do enigma que aquele pedaço de terra vulcânica encerra, e porque é que, umas vezes se conseguia ver a ilha e outras não. Parecia esconder-se no fundo do mar, emergindo subitamente, tentando respirar as nuvens e esmagando-nos com a sua imponência; qual gigante adamastor. Ainda hoje, quando penso nisso, algo me inquieta e intriga.

Giga concordava com tudo isto e, já mais à vontade um com o outro, fiquei tentado a voltar à questão do seu relacionamento com Deus. O assunto tinha ficado no ar. Ela apercebeu-se dos meus pensamentos e, sentindo-se em obrigação comigo desvendou mais um pouco a sua história.

Nasceu e viveu na ilha do Fogo até aos seus vinte e poucos anos, onde casou e teve três filhos gémeos. Sempre levara uma vida dura e humilde pois a terra nada lhes dava a não ser pó e lava. No entanto, tinha tido sorte pois o marido era um homem bom e trabalhador, gostava muito dela e dos filhos, o que lhes permitia viverem felizes. Um dia um terrível acidente aconteceu, levando os seus três filhos ainda pequenos. Não me contou como se deu tal tragédia, pois, nesta parte da história, a pausada voz travou-se de emoção e as lágrimas começaram a correr pelo bronze das faces, ofuscando-lhe o cristalino dos olhos.

O sol deixou de brilhar. Uma nuvem negra atravessou-se entre o céu e a terra, transformando a alvura do dia num quadro penoso e taciturno. Os cânticos deixaram de se ouvir, o silêncio instalou-se mais uma vez e, após uma longa pausa, continuou, já mais recomposta. Sempre fora crente em Deus, tentando levar uma vida de acordo com os mandamentos do catolicismo, frequentando a igreja quase todas as semanas, juntamente com o marido e os filhos. Aquele infortúnio destroçara-lhe, de um momento para o outro, as crenças de uma vida inteira, mas, mesmo assim, no meio da dor, ainda queria acreditar que o que o tinha acontecido poderia, por ventura, fazer algum sentido. Quando o padre da freguesia apareceu em casa para lhe enterrar os inocentes, a primeira coisa que perguntou foi:

-Porquê Padre? Porquê?

Previsivelmente, o padre respondeu como responderia qualquer outro, convicto da sua fé:

- Foi Deus que os levou minha filha.

-Mas porque razão Padre, porque fez ele tal coisa?

Voltou ela a perguntar, talvez ingenuamente, à espera que a resposta lhe pudesse suavizar aquele terrível sofrimento; respondendo o padre mais uma vez:

-Eles eram uns anjinhos, minha filha, e o melhor sítio para os anjinhos é no céu e não na terra.

Giga disse que cegou subitamente e que não sabia o que tinha acontecido depois. Quando voltou à razão, o padre estava entrevado e ela dentro de uma cela. Esteve presa durante dez anos e nunca mais voltou à sua ilha. Quando saiu em liberdade ficou-se por ali, pedinchando pelas ruas sujas da cidade e, mais tarde, fazendo pequenos trabalhos de limpeza para os estrangeiros da cidade.

Pensei na reacção de Giga e consegui entender aquele acto tresloucado. Como poderia alguém decidir entre mãe e filhos? Com que direito se poderia separar uma mãe de seus filhos, com o simples critério de que estariam melhor noutro lado? Que raio de Deus poderia fazer sofrer tanto alguém que sempre lhe foi tão devota?

Foi nestas interrogações que voltei á realidade e voltei a encarar aquela mulher, agora já com aquele seu ar bonacheirão, tentando esquecer a tristeza. O dia voltou a brilhar, abafado e ardente. Com o suor a fluir por todos os poros do meu corpo, retomei a conversa:

-E porque não voltou para a ilha do Fogo? Tinha lá o seu marido. Poderia reconstituir família!

-Não tive coragem, a vergonha e o remorso pelo que aconteceu nunca mais me largaram. O meu marido ainda fez algumas tentativas para me fazer regressar, mas perante a minha teimosia acabou por desistir e fomos perdendo o contacto. Penso que nunca deixou de me amar – disse com um ar resignado.

-E não sente saudades? Com certeza que continua a ter por lá família e amigos. Foi lá que nasceu, é lá a sua terra. E além do mais, ainda tem lá quem a ama!

-É claro que sinto, mas a saudade não é necessariamente um sentimento triste, desde que saibamos, sempre, onde é o nosso lugar!

O tema da saudade tinha voltado à baila, mas, desta vez, parecia não me incomodar tanto. Talvez porque, entre nós, se tenha gerado uma certa cumplicidade, uma certa sensação de solidariedade. Afinal, agora, a saudade era um sentimento comum a ambos.

-Mas o nosso lugar não é onde nos sentimos bem? – prossegui intrigado.

-Nem por isso! A maior parte de nós vive fora do seu lugar, apesar de levar uma boa vida. Podes possuir o que quiseres ou quem quiseres, mas se não souberes que há um lugar onde podes sempre voltar, onde tens alguém que te ama e a quem amas de verdade, tudo será aparente e falso.

E continuou muito certa do que dizia – Tu, branquinho, parece que ainda não descobriste esse lugar e, por isso, a tua saudade é triste. Pessoas como tu viverão eternamente numa constante inquietude, querendo estar sempre no lugar onde não estão e espalhando à sua volta toda a melancolia do seu ser.

Engoli em seco e nem sequer me atrevi a ripostar! Giga ergueu toda a magnitude do seu corpo, o céu e o mar passaram de azul a verde pelo simples reflexo do seu olhar, colocou o alguidar de cocos sobre a cabeça e afastou-se, serenamente, com os seus passos largos e lentos. Ainda a ouvi dizer, para além do chiar das pedras: - Adeus branquinho, até mais ver!

As ondas do mar derramaram, sobre a praia, uma fresca maresia que entrou pelo telheiro adentro, fazendo amainar a dureza sufocante do meio-dia. Dois miúdos aproximaram-se vestindo, ambos, uns pequenos fatos engelhados onde se destacavam, sobre as golas do casaco, os colarinhos claros da camisa demasiado grande e manchada. As calças, muito curtas, destapavam os tornozelos pretos e sem meias, onde encaixavam os sapatos de lustre barato e desajustados ao tamanho do pé. O cheiro a naftalina sobrepunha-se ao odor das peles negras e notava-se que eram roupas guardadas no amarrotado das gavetas, apenas para serem usadas em ocasiões mais solenes. Os seus olhos eram vivos e curiosos, deixando transparecer a humildade própria daquela gente. Pareciam gémeos, imaginei os filhos de Giga e pensei que Deus, felizmente, ainda não tinha reparado neles. Provavelmente, para alguns, isto poderia ser uma chocante heresia mas, ao lembrar-me daquela mulher, tal coisa não me preocupou minimamente. Ouviam-se falas cada vez mais perto, os miúdos continuavam a fitar-me sem qualquer gesto, percebi que a missa tinha acabado, que a vida regressava ao lugar, e que estava na hora de eu ir andando.

Entre a saída dali e a entrada na estrada principal que dá acesso à Cidade da Praia, não me lembro praticamente de nada, apesar de aquele percurso ainda ser longo. Foi um espaço em branco que ficou, como se tivesse ligado o piloto automático e me deixasse dormir. Quando dei por mim, já os prédios mais altos da capital se viam ao longe. O vento, vindo da cidade, trazia o cheiro da terra seca, contaminada de cimento e escória subjugada aos interesses do progresso. A planura ocre da paisagem enchia-se de lixo esvoaçante que acabava suspenso nas hastes aguçadas dos arbustos e dos cactos. Uma nuvem de poeira, branca e fina, espalhava-se sobre algumas pequenas construções pardacentas, fazendo antever a entrada na cidade e senti uma vontade imensa de chegar.

Pela janela ampla da sala, a sul, avistavam-se os bairros pobres e periféricos da cidade. Mais para oeste, por entre os telhados dos prédios contíguos, podia-se ver parte da baía com o porto mais ao fundo, por onde circulavam os navios, fatigados das extensas viagens através do oceano. Sentei-me no aconchego do ar condicionado e fechei os olhos. Recordei-me de Giga. Imaginei aquele enorme corpanzil de mulher amargurada a caminhar sobre as águas do mar, em direcção à ilha do Fogo. Finalmente, ao fim de muitos anos alimentando a saudade, regressava ao seu lugar, ao encontro do marido que ainda a amava e para juntos dos filhos que jaziam sob as lavas do vulcão.

Pensei em ti e senti o teu corpo aconchegado ao meu. Lembrei-me que em breve iríamos estar juntos. Sorri sozinho. Finalmente sabia onde era o meu lugar.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O TARRAFAL

A prisão do Tarrafal quando da minha passagem por Cabo Verde.

“Entre os pavilhões B e C, em frente ao portão de campo, ao fundo, há uma habitação diferente de todas as outras…um pequeno pavilhão de paredes caiadas a ocre, janelas e porta em madeira e cantaria vermelha, dividido em duas pequenas salas, uma que servia de sala de espera para os presos doentes e outra para consultório médico…era o posto de socorro mas que servia mais de casa mortuária, o que estava em tudo de acordo com o médico de campo que mais gostava de assinar certidões de óbito do que tratar os doentes…”

O médico de campo era um tal Esmeraldo Pais Prata, de alcunha o “Tralheira” de quem se dizia que na calada da noite ia assistir aos espancamentos e que costumava afirmar: “não estou aqui para curar mas para passar certidões de óbito.”

Quando se entra dentro do campo, parece que uma sensação estranha paira no ar, como se aquelas paredes ainda contivessem dentro delas todo o sofrimento daqueles que por ali padeceram.
O EMBONDEIRO
Consta-se, por aqui, que os portugueses obrigavam os escravos rodar á volta do embondeiro fazendo-os esquecer de onde vinham, antes de os embarcar para o estrangeiro. Por via disto, pensa-se que rodar à sua volta no sentido contrário faz relembrar as origens. O embondeiro é considerado uma árvore sagrada para os africanos e está associado a muitas lendas. Talvez a mais popular é a que, quando vivia no paraíso era uma árvore demasiado orgulhosa, e por isso os Deuses enterraram-no, na Terra, com as raízes viradas para o ar. Após a queda da folha, a sua nudez e a irreverência da copa dá-lhes um ar mágico, formando paisagens que mais parecem florestas assombradas, tanto mais que, também, se diz que as almas dos mortos ficam, muitas vezes, penduradas nos seus troncos. Para além de árvore mitológica, é considerada a árvore da vida, pois contem imensas propriedades medicinais e, praticamente, tudo, nesta espécie, é aproveitado em benefício dos habitantes locais.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Margem sul



Aqui estão as 3 primeiras página da BD que ando a magicar. Faltam as falas ainda, só no desenho. O título para já é Margem Sul. O resto virá depois.